A regra que ordena tudo o resto
Se as pessoas ficarem a saber antes por outro lado, já não estão a comunicar: estão a desmentir. E desmentir custa o triplo, porque a partir desse momento cada frase é lida à procura do que não se diz.
Daí sai todo o resto: a pressa em preparar os materiais, a ordem dos avisos e a decisão de não esperar por ter tudo fechado. Nestas situações comunica-se antes de se terem todas as respostas, dizendo com clareza quais é que ainda não se têm.
A ordem dos avisos
A ordem não é uma questão de cortesia. Em vários destes casos, a lei portuguesa fixa obrigações de informação e de consulta aos representantes dos trabalhadores, e saltá-las invalida o processo inteiro.
Exige que a empresa comunique por escrito a intenção à comissão de trabalhadores ou, na falta dela, aos representantes sindicais, com os motivos, o quadro de pessoal, os critérios e o calendário previsto, e que abra uma fase de informações e negociação antes de decidir.
A alteração do horário de trabalho e a transferência de local de trabalho têm procedimento próprio de informação e de audição prévia dos trabalhadores afetados e dos seus representantes. O que é exigível em cada caso depende da matéria e do contrato coletivo aplicável.
Numa fusão ou numa transmissão de empresa ou de estabelecimento, obriga a informar os representantes dos trabalhadores da data prevista, dos motivos, das consequências jurídicas, económicas e sociais e das medidas previstas, e a consultá-los sobre essas medidas.
Reconhece à comissão de trabalhadores o direito de receber as informações necessárias à sua atividade e de ser consultada antes de decisões que afetem a organização do trabalho, a reestruturação da empresa ou o volume de emprego, com tempo útil para se pronunciar.
Com isso claro, a ordem habitual é esta, e a distância entre cada passo mede-se em horas, não em dias.
01
1. Representantes dos trabalhadores
Com a documentação na mão e nos termos que a norma aplicável ao vosso caso fixar. É o passo que torna legal todo o resto.
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2. Chefias intermédias e chefes de turno
Uma hora antes das restantes pessoas, com a mensagem e com as perguntas e respostas por escrito. Um chefe de turno que fica a saber ao mesmo tempo que a sua equipa não consegue sustentar a conversa que vem a seguir, e é essa conversa que interessa mesmo.
03
3. Todo o quadro de pessoal, ao mesmo tempo
O mesmo texto para toda a gente, no mesmo momento, incluindo os turnos que não estão no centro. É aqui que o sistema de sempre cai: se se fizer numa reunião presencial, o turno da noite fica a saber oito horas depois do cunhado.
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4. Pessoas diretamente afetadas
Individualmente e com nome, na conversa que corresponder e nunca por um canal coletivo. Que saibam pelo aviso geral que vão ter essa conversa e quando.
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5. Fora da empresa
Clientes, fornecedores, imprensa. Depois, sempre depois. Que um fornecedor saiba antes das pessoas da casa é das coisas que não se esquecem.
O dia e a hora
- Nunca a uma sexta-feira à tarde. Deixa as pessoas com um fim de semana inteiro com a notícia e sem ninguém a quem perguntar, e devolve na segunda uma empresa inteira a falar de rumores.
- Nunca na véspera de uma ponte ou do encerramento para férias.
- Logo à primeira hora, e no ponto do ciclo de turnos em que houver mais gente no centro ou a entrar.
- Com a agenda das chefias livre nas quatro horas seguintes. No dia em que comunicam isto, as reuniões delas cancelam-se.
- Com um canal de perguntas aberto desde o primeiro minuto, e não «a partir de amanhã».
Em empresas por turnos há ainda um problema que não tem solução perfeita: alguém vai ler isto em casa, porque folga. Publicá-lo num canal onde essa pessoa possa entrar é melhor do que deixar que lho conte um colega, ainda que não seja a forma ideal.
O que se diz, e por que ordem
O texto vai direto ao assunto e responde pela ordem em que as pessoas se fazem as perguntas. Nada de parágrafos sobre o enquadramento competitivo antes de se dizer o que se passa.
01
O que aconteceu
Numa frase, com a palavra que lhe corresponde. Se é um despedimento coletivo, diz-se «despedimento coletivo». Os eufemismos leem-se pelo que são e afundam a credibilidade do resto do texto.
02
Quem é afetado e quem não
Se ainda não se sabe, diz-se que ainda não se sabe e quando se saberá. A ausência deste parágrafo é o que enche de rumores os grupos de mensagens nas duas horas seguintes.
03
O que não muda
Vencimentos, turnos, centros que continuam iguais. É informação real e é o que baixa a temperatura.
04
O que vem agora e quando
As datas do processo: quando começa a fase de informações e negociação, quando haverá informação nova. Um calendário, ainda que provisório, organiza a incerteza.
05
Onde se pergunta
Uma pessoa, um canal e um horário. E os representantes dos trabalhadores, com os contactos, sem que seja preciso ir procurá-los.
As chefias intermédias são o canal, não o megafone
A maior parte desta comunicação não acontece no comunicado: acontece nas conversas dos dias seguintes, no balneário e na sala de descanso. Quem as sustenta é o chefe de turno.
- Deem-lhes a mensagem antes, com tempo para a lerem e para perguntarem.
- Deem-lhes uma folha de perguntas e respostas, incluindo as que ainda não têm resposta e o que se responde nesse caso.
- Digam-lhes explicitamente o que podem contar e o que não. A dúvida paralisa-os e o silêncio é interpretado como confirmação do pior.
- Deem-lhes um sítio onde possam perguntar eles, à parte do canal geral. As dúvidas deles não podem ser resolvidas à frente da equipa.
- E não lhes peçam que defendam a decisão. Basta que a expliquem bem.
O que acontece depois, que é onde se decide a credibilidade
O erro mais comum não é o primeiro comunicado: é o silêncio das três semanas seguintes. As pessoas interpretam-no como havendo alguma coisa que não se conta, e quase sempre acertam a meias.
01
Cadência fixa
Uma atualização semanal, no mesmo dia, ainda que a atualização seja «esta semana não há novidades e a próxima reunião é na quinta». Lê-se, e sustenta a confiança.
02
Perguntas respondidas em aberto
Recolham as que chegam e respondam-lhes onde toda a gente as veja. Responder em privado multiplica o trabalho e alimenta a sensação de tratamento desigual.
03
Os comentários
Se o vosso canal permitir comentar, a tentação é fechá-los. Fechá-los sem explicar porquê é pior do que deixá-los abertos. Se se fecharem, diz-se porquê e onde se pode perguntar em vez disso.
04
O fecho
Quando o processo termina, comunica-se que terminou e com que resultado. Os processos que se apagam sem fim deixam as pessoas à espera da segunda parte durante meses.
