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Planeamento

Como fazer um plano de comunicação interna que se consiga mesmo executar

Quase todos os planos de comunicação interna que se escrevem em Portugal acabam numa pasta partilhada. Não por estarem mal feitos, mas por serem um índice de intenções sem ninguém por trás. Esta é a estrutura que se executa mesmo, ponto por ponto e com o que é preciso escrever em cada um.

·9 min de leitura

O que é um plano de comunicação interna, e o que não é

Um plano de comunicação interna é um documento curto que responde a três perguntas: a quem é preciso chegar, com o quê, e quem o faz todas as semanas. O resto é enchimento.

Não é um manual de identidade corporativa. Não é uma lista de canais. E não é um projeto de ferramenta: a ferramenta escolhe-se no fim, quando já se sabe a quem é preciso chegar, com que frequência e o que tem de ficar registado.

Extensão razoável para uma empresa de várias centenas de pessoas: entre seis e dez páginas. Se passar das vinte, não o lê nem o próprio departamento.

Ponto 1: o mapa de quem não fica a saber

O diagnóstico não é um inquérito de clima. É um censo, e faz-se com a lista de pessoal à frente.

  • Quantas pessoas há em cada centro, em cada departamento e em cada turno.
  • Quantas dessas pessoas têm e-mail da empresa. E dessas, quantas o abrem.
  • Por onde recebe hoje a informação cada grupo: e-mail, quadro de avisos do balneário, o chefe de turno, um grupo de WhatsApp, um papel agrafado ao recibo de vencimento.
  • O que aconteceu da última vez que houve um aviso importante. Quem ficou a saber, quando, e quem nunca chegou a saber.

Um exemplo de como se vê um diagnóstico terminado: uma unidade fabril de 480 pessoas, 60 em escritórios com e-mail da empresa que usam todos os dias e 420 na produção a três turnos, com um endereço de e-mail nominal que ninguém abre porque não há computador no posto. O e-mail cobre doze por cento do quadro de pessoal. Isto é um diagnóstico, e cabe em duas frases.

Dediquem-lhe uma semana e falem com os chefes de turno de cada centro antes de falarem com mais alguém. Eles sabem exatamente o que não chegou da última vez, e porquê.

Ponto 2: objetivos que se possam defender

«Melhorar a comunicação interna» não é um objetivo. Um objetivo é uma frase com um número, um prazo e um responsável com nome e apelido.

  • Que a escala de turnos do mês seguinte tenha sido vista por 80 % do pessoal da produção antes do dia 25 do mês anterior.
  • Que o novo procedimento dos empilhadores conste como recebido pelas 96 pessoas que os manobram, antes de 30 de junho.
  • Que nenhum centro fique abaixo dos 60 % de alcance nos comunicados oficiais durante dois trimestres seguidos.
  • Que os avisos de operações deixem de sair do telemóvel pessoal de um chefe de turno e passem para um canal onde fiquem.

Três objetivos, não sete. E dos três, pelo menos um tem de ser incómodo: o que vos obriga a olhar para o centro que está pior em vez de olharem para a média da empresa.

Ponto 3: os públicos, a sério

Segmentar não é dividir entre «colaboradores» e «direção». É reconhecer que a mesma notícia chega por caminhos diferentes e com horas de diferença consoante o sítio onde cada um está.

PúblicoComo se chega hoje até eleO que lhe interessa
Escritórios e serviços centraisE-mail e reuniõesResultados, projetos, mudanças organizativas
Produção, turno da manhãA mudança de turno e o quadro de avisos do balneárioEscala de turnos, segurança, incidentes da linha
Produção, turno da noiteO que lhe conta o turno que saiO mesmo, e sempre com atraso
Lojas e delegaçõesUma chamada ou uma mensagem ao responsável de lojaPromoções, preços, procedimentos de sala
Pessoas que entraram há poucoO seu padrinho, se tiver tempo nesse diaOnde se pica o ponto, a quem se avisa, que equipamento lhe cabe
Representantes dos trabalhadoresReuniões e quadro de avisos sindicalTudo, e antes do resto do quadro de pessoal

A última linha é a que mais planos ignoram, e é a que decide se o resto avança. Em Portugal, uma ferramenta que chega ao telemóvel de todo o quadro de pessoal leva-se à comissão de trabalhadores antes de a assinar, não depois.

Ponto 4: o que se diz por onde

Uma regra que poupa discussões: cada tipo de mensagem tem um canal principal, e só um. Quando o que é importante pode ir por quatro sítios, acaba por ir pelo mais cómodo para quem o escreve, que quase nunca é o que chega a quem tem de o ler.

  1. 01

    O obrigatório

    Segurança e saúde no trabalho, recibos de vencimento, políticas, alterações do contrato coletivo. Vai pelo canal onde fica registo de quem o recebeu e quando. Nunca por um grupo de mensagens.

  2. 02

    O operacional

    Paragem de linha, mudança de escala, incidente numa loja. Vai pelo canal mais rápido que chegue ao turno afetado, e segmentado: se é da fábrica de Braga, não o recebe Faro.

  3. 03

    O institucional

    Resultados, reestruturações, nomeações. Vai primeiro aos representantes dos trabalhadores e às chefias intermédias, depois ao quadro de pessoal e só então para fora da empresa. A ordem importa mais do que o texto.

  4. 04

    O que constrói o hábito

    Reconhecimentos, reformas, a fotografia da paragem técnica, quem entrou de novo. É o que faz com que as pessoas abram o canal por sua iniciativa. Sem isto, o canal só traz más notícias e é abandonado num mês.

Proporção que funciona: por cada comunicado obrigatório, três ou quatro dos outros. Não é maquilhagem. É o que mantém vivo o sítio onde depois têm de publicar o que é importante.

Ponto 5: o calendário editorial de um trimestre

Este é o ponto que transforma o plano em trabalho. Uma tabela, um trimestre pela frente, e revê-se na primeira segunda-feira de cada mês.

QuandoO quêQuem o escreveA quem vai
Dia 20 de cada mêsEscala de turnos do mês seguinteChefe de turnoProdução, por turno
Primeira terça-feiraResumo de produção e segurança do mêsDireção da fábricaTodo o centro
Quando for caso dissoAlteração de um procedimento de segurançaServiço de SSTSó os postos afetados, com confirmação de leitura
De quinze em quinze diasUma notícia da casa: obra nova, cliente novo, aniversárioComunicação ou RHToda a empresa
TrimestralInquérito curto, cinco perguntas, sempre as mesmasRHPor centro

Deixem dois espaços vazios de propósito todos os meses. Enchem-se sozinhos, e se não os deixarem, o que surgir vai empurrar o que estava planeado.

Ponto 6: como vão saber se funciona

Um plano sem medição defende-se com anedotas, e as anedotas duram até ao primeiro corte de orçamento.

  • A percentagem do quadro de pessoal que viu cada comunicado oficial, discriminada por departamento.
  • Esse mesmo dado ordenado de menor para maior: o que interessa é o centro que está pior, não a média da empresa.
  • Quantas pessoas entraram pelo menos uma vez no último mês.
  • Quantos documentos com confirmação de leitura continuam pendentes, e em que postos.
  • Uma pergunta trimestral ao quadro de pessoal, sempre a mesma, para se poder comparar entre trimestres.

O que não serve: o número de publicações por mês, as impressões e os gostos. Medem atividade do departamento, não se as pessoas ficaram a saber.

Quem faz isto se não tiverem departamento de comunicação

A maioria das empresas portuguesas de duzentas a mil pessoas não tem um departamento de comunicação interna. Tem alguém dos recursos humanos que, além do resto, faz isto.

Funciona, com duas condições. Que essa pessoa tenha o tempo atribuído por escrito — duas horas por semana, não «quando puder» — e que tenha autorização para publicar sem passar por três assinaturas.

  • Um responsável com nome e apelido.
  • Um substituto, para agosto e para as baixas.
  • Um correspondente por centro, normalmente o chefe de turno: é quem tem as fotografias e as notícias.
  • Um circuito de aprovação curto e escrito: quem revê o quê, e em quantas horas.

O que afunda um plano não costuma ser o orçamento. É o comunicado de terça-feira ficar à espera do visto de um diretor que está em viagem até quinta.

Os cinco erros que se repetem

  1. 01

    Começar pela ferramenta

    Compra-se uma plataforma e só depois se procura o que publicar nela. A ordem correta é a contrária, e ainda barateia a compra: quando sabem do que precisam mesmo, metade dos módulos do orçamento sobra.

  2. 02

    Arrancar com as boas-vindas à ferramenta

    A primeira publicação tem de ser algo que as pessoas queiram ler: a escala de turnos, a distribuição do cabaz de Natal, a fotografia da paragem técnica. A apresentação da intranet nova não a abre ninguém.

  3. 03

    Abrir todos os centros ao mesmo tempo

    Se a distribuição falhar num centro, resolve-se numa semana. Se falhar em doze, a conclusão da direção será que isto não funciona.

  4. 04

    Apresentar a média

    Um alcance médio de 68 % pode esconder um centro a 95 % e outro a 20 %. A média tranquiliza a comissão executiva e não resolve nada.

  5. 05

    Deixar de publicar em agosto

    O hábito perde-se em três semanas e recuperá-lo custa um trimestre. Deixem duas publicações preparadas antes das férias.

Para terminar

O plano não é o documento

O que faz isto funcionar não é o documento: é a cadência. Alguém publica à terça-feira, todas as semanas, e alguém vê na segunda seguinte a quantas pessoas chegou. Com isso, um plano de seis páginas chega.

E se o vosso diagnóstico saiu como sai quase sempre — o e-mail cobre a parte de escritório e ao resto chega-se através do chefe de turno —, o que têm não é um problema de plano, é um problema de canal. A Blastack existe para isso: levar o comunicado ao telemóvel de quem não tem e-mail da empresa e poder dizer depois que percentagem o viu, centro a centro.